Monday, December 31, 2007

Ano Velho, Ano Novo




Boas entradas e um 2008 em grande.

Traduções Fictícias

Confesso que tiro o meu chapéu a quem faz (boa) tradução de humor. Tirando a tradução de poesia, teatro e outros géneros literários, não deve haver subgénero em que a tensão latente entre o original e o texto traduzido seja tão presente e, ao mesmo tempo, tão intensa, algures no limiar do intraduzível. Para além dessa fronteira ténue que separa duas (ou mais) realidades tão distintas e, no entanto, tão próximas, para além dessa linha tensa que segura o texto por entre jogos de sentido, por entre o dito, o não-dito e o entre-dito, há um novo corpo dinâmico e funcional que ganha forma e contornos outros, fruto de um combate simultaneamente feroz e dócil, espécie de luta corpo-a-corpo, onde as perdas e ganhos, as equivalências, adaptações e compensações mais não são do que instrumentos ao serviço desse milagre perpétuo e sublime da transformação, metamorfose e regeneração textual.
Ao sabor dos trocadilhos, implícitos, referências culturais, intertextos, alusões, metáforas e subentendidos, há algo que, ainda assim, se destaca na tradução de humor: o direito inalienável de rir e fazer rir com inteligência, esse exercício de cidadania tão arredado do nosso quotidiano, que é o sentido de humor fino e puro, essa saudável capacidade de rir e sorrir de nós, connosco e com os outros, experiência terapêutica e catártica de partilha onde a tríade autor-tradutor-leitor se une e comunga de um mesmo desígnio comum e intemporal.
Não falando dos incontornáveis Monty Python, Seinfelds e respectivos spinoffs, gostaria de destacar 2 das séries que me têm feito companhia por entre mudas de fraldas e biberões, madrugada adentro, lá pela calada da noite: Little Britain e Smith & Jones

Músicas do Mundo




Conselho do dia para aficionados da "chamada world music, folk, música tradicional, étnica e as suas margens e fusões", etc. e tal




Saturday, December 29, 2007

Ganda som!




Um dos melhores discos de 2007

Sharon Jones & The Dap-Kings

"100 Days, 100 Nights"

Retrato de família: O meu tríptico portátil pessoal e tecnologicamente versátil, versão digital para o século XXI





Da Maria Beatriz

O riso dos tradutores (Jorge Silva Melo dixit)

Uma bela homenagem aos tradutores, por quem sabe e sente como nós...

Crónica "O riso dos tradutores", publicada no jornal Público de 31 de Maio de 2003, na rubrica Fora de Mercado


"Eureka!", proclamam e, a meio da noite, correm pela casa e, se pudessem, pelas ruas. São assim, Arquimedes, infantis, os tradutores. Eu gosto de os ver, enfronhados em dicionários, velhas edições, sabendo que é provisório o seu trabalho, riscando provas, consultando especialistas (o Jaime Rocha na Federação do Boxe, eu, na Portugália, a ver nomes de vasilhame, o José Lima a conferir comigo títulos de peças...), maníacos com as formas de cortesia (como agradeceram ao prof. Cintra a sistematização que publicou nos Livros Horizonte), comprando os mais estranhos instrumentos ("tenho um dicionário de termos náuticos!", diz-me o António Gonçalves, tradutor de Torrente Ballester, "mas fartei-me de telefonar para o Museu", "um dicionário de 'argot' raro e isso não vem", queixava-se o Manuel João Gomes), dedilhando impossíveis contagens e elisões (o Manuel Resende e o seu nunca por demais louvado "Coriolano") e a descoberta de erros ("no original, havia gralhas"/na Pauvert, não traduziram as dificuldades, saltaram..."/"o autor esqueceu-se, ela estava grávida há dois anos e ainda não teve a criança?"), conhecendo como ninguém as voltas da escrita.

Às vezes entristecem, depois de dúvidas doridas, encolhem os ombros ("maldita polissemia, olha, fica um dos sentidos") ou resignam-se a notas que logo fenecem. Num Mailer que ali tenho, "Praia da Barbaria", de 1961, Rui Costa precisou de pôr uma destas desprezadad notas para "cafetaria" ("misto de café e 'snack-bar' muito frequente nas cidades americanas", acrescentou ele para nós, que só sabíamos do copo de três no Val do rio).

E gritam de fúria com as gralhas. Tremia-lhe a voz, ao Francisco Frazão ao ver a sua tradução do "Primeiro Amor" metida na ortodoxia da pontuação pelas vírgulas e pontos com que iletrado revisor polvilhou o fraseado oblíquo de Beckett.

Mas não esqueço o riso do Francisco ao descobrir que "cenoura albina" pode ser "pastinaga". o que ria ele e o Miguel Borges ao encontrarem "procrastinar". O que a Luiza Neto Jorge ria, no café da Mata da Caparica, anotando o seu Verlaine inicialmente publicado na &etc. e agora na Assírio ("Hombres"), o que ela ria com as maroteiras com que torneava as dificuldades da linguagem pornográfica do Virgem Doida. O que ríamos com as descobertas que fez na "Salada Cómica" de Karl Valentin. O que ainda ri o Vítor Palla ao falar-me ao telefone da sua espantosa tradução do Damon Runyon: "Isso foi uma paródia de amigos." O que ainda ri o Artur Ramos ao lembrar-se de como o José Palla e Carmo lhe traduziu o "Tango des Abattoirs" de Boris Vian: "Já estou farto de beijos/de desejos/de despejos/passa a aguardente/já estou farto de ser hetero/com mulheres/a quilo/a metro/passa a aguardente."

E como gostam de partilhar as descobertas. "Sabes como fiz?" Olhem-me este "mail" de Alessandra Serra, a tradutora italiana de Pinter, acerca do "Sarilho as Obras", com a sua temível enumeração de ferramentas que nenhum AKI satisfará: "Fuia a uma enciclopédia, à voz 'hidráulica' e pus-me a inventar a partir daquelas palavras, tentando manter-me dentro do tema. Faz isso e vais ver que te divertes."

Por isso gosto deles, do sorriso da Fernanda Pinto Rodrigues, lembro-me tão bem da sua claridade num programa de televisão, quando é que a sociedade civil a levará lá de novo? E exultei quando Zita Seabra me descobriu na Bertrand o Salinger traduzido pelo Sttau e o Vasco Pulido Valente (reedição, já!).

E todo eu tremi, no outro dia, ao descobrir numa gaveta as primeiras 17 páginas da "Andrómaca" de Racine que a Luiza ia traduzir: "Pois quê? A vossa ira ainda é persistente?/Pode odiar-se tanto?/E castigar somente?"

Um desejo para a Feira que abre agora: esgotem as "Novas Impressões de África" do Raymond Roussel (Fenda) na tradução da Luiza Neto Jorge, esgotem-na e tenham-na, como eu tenho, desde o dia em que a Luiza morreu, à cabeceira.

Para não pararmos de rir com a Luiza o seu maravilhoso riso sibilino.

Nós e a imprensa (Danilo Nogueira dixit)




Nem de propósito... Este post vem mesmo a calhar.
Porque este senhor, pelo contrário, está cheiinho de razão.

Matando o mensageiro (Joel Neto dixit)

Joel Neto, sobre os tradutores, na sua coluna de opinião "Muito Bons Somos Nós".

Discutível, no mínimo. Mas não posso dizer que o homem, lá no fundo, não tem a sua ponta de razão.

Friday, December 28, 2007

Os donos da bola (outro exercício de tradução especializada)



Experimentem traduzir este artigo com igual souplesse e finesse, adaptando-o (ou melhor, localizando-o) ao nosso futebolês.

Vão ver que a gíria futebolística, a beleza enleante da frase, o estilo invulgar, a técnica poderosa e a terminologia/fraseologia especializadas são comuns aos dois sistemas referenciais, desportiva e culturalmente falando, é claro.

Advice to translators: Deixa-te de lamúrias e faz-te à vida

Um dos muitos conselhos que retive da última conferência de Chris Durban na Universidade do Minho (Outubro de 2007). Sem dúvida, uma das experiências pessoais mais marcantes do ano que agora finda.


Beware the Poverty Cult!
"Definition: When one indulges in wailing and gnashing of teeth about poor translator visibility while throwing in the towel and doing nothing oneself."

Poverty cult members complain bitterly about media depictions of translators, while never ever making the effort to correct those erroneous perceptions—even to the extent of becoming participants in their own self-destruction.

Má língua 1

Mais um exemplo do estado da nação... ou o que se diz por aí (mal) sobre os tradutores.

Uma boa prenda de Natal (talvez para o ano, ou nos Reis)



Beckett on Film


Este já cá canta. Uma colecção de 19 filmes, inspirados na obra de Beckett. As peças do dramaturgo irlandês transpostas para televisão. Um documento ímpar.



O sonho americano (revisitado)

E por falar em Oeste...


Um álbum, a banda sonora ideal para outras paragens, mais inóspitas e desertas. Impossível ficar insensível a perólas como "Mexican Radio" ou "Lost Weekend". Nada foi (será) como dantes.





Call of the West, Wall of Voodoo

Um livro: "Written in the West"

Este é o texto de apresentação de um livro de fotografia sobre o Oeste americano que ando a pedir ao Pai Natal há um bom par de anos... Pela evocação do filme e pelo olhar fascinante sobre uma paisagem que ainda hoje, povoa o meu imaginário.

"In 1983, Wim Wenders travelled through the American West in search of locations for the shooting of "Paris, Texas". In the process, he produced an impressive sequence of photos of the country, glimpsed with the professional - and at the same time personal - eye of one of the greatest German directors of our time."

Written in the West, Wim Wenders (1983)

A vírgula - Breve exercício de tradução



Há anos que andava à procura deste texto. Digamos que era uma espécie de texto de estimação, um daqueles textos que sempre me marcou, pela forma como era viciantemente trabalhoso e volátil, resistindo, hesitante e inquieto à sua fixação... nessa luta corpo a corpo que com ele travava durante o processo de tradução. E, no entanto, sempre tão presente, e sempre tão constante, fruto dessa afinidade e proximidade cúmplices que juntos fomos construindo.

Li-o e traduzi-o em contexto de aula vezes sem conta. Era uma espécie de fiel companheiro em todas as minhhas aulas de introdução à tradução, pela sua multiplicidade de sentidos ocultos, pelo mero exercício de virtuosismo diletante, por ser intrincadamente difícil, estilisticamente floreado, prosodicamente imprevisível, culturalmente rebuscado e, ao mesmo tempo, tão actual e linear, simples e despojado, cheio de alusões, intertextos, espaços vazios de sentido à espera da sua revelação.

Entretanto, o mundo deu várias voltas e a crónica de Pico Iyer perdeu-se num montão de papéis encharcados, vítima de uma certa cheia de Inverno que inundou a minha garagem. Hoje, recuperei-o graças ao Google e à Time e, por isso mesmo, quero guardá-lo neste meu baú das recordações, onde a memória se alimenta e os sentidos repousam.



Monday, Jun. 13, 1988
In Praise of the Humble Comma
By Pico Iyer


The gods, they say, give breath, and they take it away. But the same could be said -- could it not? -- of the humble comma. Add it to the present clause, and, of a sudden, the mind is, quite literally, given pause to think; take it out if you wish or forget it and the mind is deprived of a resting place. Yet still the comma gets no respect. It seems just a slip of a thing, a pedant's tick, a blip on the edge of our consciousness, a kind of printer's smudge almost. Small, we claim, is beautiful (especially in the age of the microchip). Yet what is so often used, and so rarely recalled, as the comma -- unless it be breath itself?
Punctuation, one is taught, has a point: to keep up law and order. Punctuation marks are the road signs placed along the highway of our communication -- to control speeds, provide directions and prevent head-on collisions. A period has the unblinking finality of a red light; the comma is a flashing yellow light that asks us only to slow down; and the semicolon is a stop sign that tells us to ease gradually to a halt, before gradually starting up again. By establishing the relations between words, punctuation establishes the relations between the people using words. That may be one reason why schoolteachers exalt it and lovers defy it ("We love each other and belong to each other let's don't ever hurt each other Nicole let's don't ever hurt each other," wrote Gary Gilmore to his girlfriend). A comma, he must have known, "separates inseparables," in the clinching words of H.W. Fowler, King of English Usage.
Punctuation, then, is a civic prop, a pillar that holds society upright. (A run-on sentence, its phrases piling up without division, is as unsightly as a sink piled high with dirty dishes.) Small wonder, then, that punctuation was one of the first proprieties of the Victorian age, the age of the corset, that the modernists threw off: the sexual revolution might be said to have begun when Joyce's Molly Bloom spilled out all her private thoughts in 36 pages of unbridled, almost unperioded and officially censored prose; and another rebellion was surely marked when E.E. Cummings first felt free to commit "God" to the lower case.
Punctuation thus becomes the signature of cultures. The hot-blooded Spaniard seems to be revealed in the passion and urgency of his doubled exclamation points and question marks ("Caramba! Quien sabe?"), while the impassive Chinese traditionally added to his so-called inscrutability by omitting directions from his ideograms. The anarchy and commotion of the '60s were given voice in the exploding exclamation marks, riotous capital letters and Day-Glo italics of Tom Wolfe's spray-paint prose; and in Communist societies, where the State is absolute, the dignity -- and divinity -- of capital letters is reserved for Ministries, Sub-Committees and Secretariats.
Yet punctuation is something more than a culture's birthmark; it scores the music in our minds, gets our thoughts moving to the rhythm of our hearts. Punctuation is the notation in the sheet music of our words, telling us when to rest, or when to raise our voices; it acknowledges that the meaning of our . discourse, as of any symphonic composition, lies not in the units but in the pauses, the pacing and the phrasing. Punctuation is the way one bats one's eyes, lowers one's voice or blushes demurely. Punctuation adjusts the tone and color and volume till the feeling comes into perfect focus: not disgust exactly, but distaste; not lust, or like, but love.
Punctuation, in short, gives us the human voice, and all the meanings that lie between the words. "You aren't young, are you?" loses its innocence when it loses the question mark. Every child knows the menace of a dropped apostrophe (the parent's "Don't do that" shifting into the more slowly enunciated "Do not do that"), and every believer, the ignominy of having his faith reduced to "faith." Add an exclamation point to "To be or not to be . . . " and the gloomy Dane has all the resolve he needs; add a comma, and the noble sobriety of "God save the Queen" becomes a cry of desperation bordering on double sacrilege.
Sometimes, of course, our markings may be simply a matter of aesthetics. Popping in a comma can be like slipping on the necklace that gives an outfit quiet elegance, or like catching the sound of running water that complements, as it completes, the silence of a Japanese landscape. When V.S. Naipaul, in his latest novel, writes, "He was a middle-aged man, with glasses," the first comma can seem a little precious. Yet it gives the description a spin, as well as a subtlety, that it otherwise lacks, and it shows that the glasses are not part of the middle-agedness, but something else.
Thus all these tiny scratches give us breadth and heft and depth. A world that has only periods is a world without inflections. It is a world without shade. It has a music without sharps and flats. It is a martial music. It has a jackboot rhythm. Words cannot bend and curve. A comma, by comparison, catches the gentle drift of the mind in thought, turning in on itself and back on itself, reversing, redoubling and returning along the course of its own sweet river music; while the semicolon brings clauses and thoughts together with all the silent discretion of a hostess arranging guests around her dinner table.
Punctuation, then, is a matter of care. Care for words, yes, but also, and more important, for what the words imply. Only a lover notices the small things: the way the afternoon light catches the nape of a neck, or how a strand of hair slips out from behind an ear, or the way a finger curls around a cup. And no one scans a letter so closely as a lover, searching for its small print, straining to hear its nuances, its gasps, its sighs and hesitations, poring over the secret messages that lie in every cadence. The difference between "Jane (whom I adore)" and "Jane, whom I adore," and the difference between them both and "Jane -- whom I adore -- " marks all the distance between ecstasy and heartache. "No iron can pierce the heart with such force as a period put at just the right place," in Isaac Babel's lovely words; a comma can let us hear a voice break, or a heart. Punctuation, in fact, is a labor of love. Which brings us back, in a way, to gods.





Wednesday, December 26, 2007

Kilkelly (esta palavra "saudade")


Kilkelly
(Peter Jones)


Kilkelly, Ireland, 1860, my dear and loving son John
Your good friend schoolmaster Pat McNamara's so good
as to write these words down.
Your brothers have all got a fine work in England,
the house is so empty and sad
The crop of potatoes is sorely infected,
a third to a half of them bad.
And your sister Brigid and Patrick O'Donnell
are going to be married in June.
Mother says not to work on the railroad
and be sure to come on home soon.


Kilkelly, Ireland, 1870, my dear and loving son John
Hello to your Mrs and to your 4 children,
may they grow healthy and strong.
Michael has got in a wee bit of trouble,
I suppose that he never will learn.
Because of the darkness there's no turf to speak of
and now we have nothing to burn.
And Brigid is happy you named a child for her
although she's got six of her own.
You say you found work, but you don't say
what kind or when you will be coming home.


Kilkelly, Ireland, 1880, dear Michael and John, my sons
I'm sorry to give you the very sad news
that your dear old mother has gone.
We buried her down at the church in Kilkelly,
your brothers and Brigid were there.
You don't have to worry, she died very quickly,
remember her in your prayers.
And it's so good to hear that Michael's returning,
with money he's sure to buy land
For the crop has been poor and the people
are selling at any price that they can.


Kilkelly, Ireland, 1890, my dear and loving son John
I suppose that I must be close on eighty,
it's thirty years since goodbye.
Because of all of the money you send me,
I'm still living out on my own.
Michael has built himself a fine house
and Brigid's daughters have grown.
Thank you for sending your family picture,
they're lovely young women and men.
You say that you might even come for a visit,
what joy to see you again.


Kilkelly, Ireland, 1892, my dear brother John
I'm sorry I didn't write sooner to tell you, but father passed on.
He was living with Brigid, she says he was cheerful
and healthy right down to the end.
Ah, you should have seen him play with
the grandchildren of Pat McNamara, your friend.
And we buried him alongside of mother,
down at the Kilkelly churchyard.
He was a strong and a feisty old man,
considering his life was so hard.
And it's funny the way he kept talking about you,
he called for you in the end.
Oh, why don't you think about coming to visit,
we'd all love to see you again.


Vídeo disponível em

Por que será que ninguém se lembrou de fazer uma música sobre a A3?

Uma canção para os verdadeiros cavaleiro do asfalto (portagens e radares incluídos)

"Ventura Highway" dos America

http://br.youtube.com/watch?v=KnhKcCwZwl8

Sunday, December 23, 2007

A Norma EN 15038 (se a ASAE descobre este filão...)

A norma europeia EN 15038 visa certificar os serviços de tradução em conformidade, através de um processo de auditoria independente, não se limitando apenas a certificar a existência de um sistema de gestão da qualidade, mas também a implementação e o cumprimento de uma série de requisitos e procedimentos necessários, em que a tónica seria colocada no produto e na elevada qualidade do serviço prestado pelos próprios TSPs.
Pretende-se identificar uma consonância de perspectivas que uniformizem as práticas da indústria e profissão, de forma a contribuir para a eventual clarificação de questões relacionadas com a profissionalização dos serviços.
Estes são alguns dos objectivos que presidem à implementação da norma: o aumento da consciencialização, sensibilização e transparência na oferta, a maior clareza nas relações entre o cliente e o fornecedor/prestador de serviços de tradução, a definição clara do âmbito e abrangência das relações estabelecidas e, ao mesmo tempo, o estabelecimento de parâmetros claros de regência dos procedimentos profissionais, o estabelecimento de regras claras ao nível da relação entre as empresas de tradução e os tradutores individuais que com elas trabalham em regime de colaboração ou subcontratação e, por último, um melhor entendimento das tarefas envolvidas na definição e prestação de um serviço de tradução de elevada qualidade, fomentando e desenvolvendo, ao mesmo tempo, uma cultura organizacional colaborativa entre as empresas aderentes aos seus requisitos normativos.
A “Norma sobre os Serviços de Tradução EN 15038” apresenta alguns pontos que importa equacionar. Desde logo, e à partida, o próprio conceito de tradutor acaba por ser totalmente redefinido através da introdução da nomenclatura TSP ou Translation Service Provider (Fornecedor de Serviços de Tradução), ou seja, “a person or organisation supplying translation services” (EN 15038:2006, alínea 2.18, pág. 6) e, sobretudo, estabelecendo a distinção entre esse translation service provider (TSP) e o tradutor, este último como “person who translates (2.17), no sentido simplificado de “render information in the source language into the target language in written form.” (EN 15038:2006, alínea 2.17, pág. 6).

A norma europeia especifica ainda os requisitos básicos para o TSP (Translation Service Provider) relativamente aos recursos técnicos e humanos, gestão e política ou práticas de qualidade, gestão de projectos, estrutura contratual, a relação cliente/TSP, bem como os procedimentos envolvidos na prestação de um serviço de qualidade, abordando parâmetros e rubricas diferenciadas, como, por exemplo: serviços de valor acrescentado, locale, linguagens controladas, gestão de projectos, gestão da qualidade, pré-edição, pós-edição; checking, reviser/proofreading; reviewer/review, project registration details ou diário do projecto, project registration, project assignment, guia de estilo, entre outros.
De igual forma, a norma EN15038 para os Serviços de Tradução estabelece toda uma série de requisitos básicos necessários para o perfil do futuro tradutor, nos quais são incluídas e descritas algumas valências e competências como, por exemplo, Gestão dos recursos humanos, Competências translatórias, Competência linguística e textual na LP e LC, Competência de investigação, aquisição e processamento da informação, Competência cultural, Competência interpessoal, Competência técnica e Competências profissionais.

(extraído de "Quase tudo o que eu (sempre) quis saber sobre tradução : kit de sobrevivência", disponível em http://hdl.handle.net/1822/5890)

Dá que pensar... (Boas Festas incluídas)

Moralismos à parte, por que não parar um pouco para vermos as figuras tristes que muito boa gente anda por aí a fazer?



video

Thursday, December 20, 2007

Jangadas de pedra





(...) Quando penso no processo e no acto de tradução, utilizo muitas vezes a metáfora geológica da tectónica de placas, para descrever o tipo de acções e transformações que o processo de tradução opera na camada e estrutura do texto. Em termos geológicos, uma placa é um segmento rígido da crosta terrestre constituído por rocha sólida. A palavra tectónica encontra a sua raiz no grego como o equivalente vernacular do significado do verbo construir. Juntando estas duas palavras obtemos a designação de "tectónica de placas", que se refere à ideia de que a superfície da Terra é construída por placas. Assim, numa perspectiva simplificada, podemos considerar que a teoria da tectónica de placas sustenta que a camada mais exterior da Terra, a crosta, se encontra fragmentada em placas de diferentes dimensões, que se movem umas em relação às outras ao deslizar sobre material mais quente e móvel do interior da Terra.
Se, entretanto, transpusermos esta nomenclatura para o nível textual, a questão da fragmentação permite entender o texto como algo dinâmico e móvel e compreender a forma como os processos de tradução ocorrem, tornando-se clara a noção de que toda a superfície do texto se encontra em contínua mutação e, tal como o movimento dos continentes, o tradutor é confrontado com um texto à deriva, repleto de cristas, depressões e falhas transformantes, fruto desse movimento convergente e divergente de placas. Tal como a superfície terrestre, a superfície do texto encontra-se, por isso, fragmentada em enormes placas - placas litosféricas - cuja posição e tamanho variam ao longo dos tempos. As extremidades destas placas, devido à interacção que se estabelece entre as mesmas, constituem locais de intensa actividade geológica, sobretudo sísmica e vulcânica.
Continuando com a metáfora geológica, é um dado adquirido que, durante o processo de tradução, o texto resiste, espera, adia a revelação do seu sentido. Tal como toda a prática artística ou científica há sempre uma rejeição, retracção, repulsa e resistência iniciais que é necessário e urgente ultrapassar. Porém, depois de ultrapassar essas barreiras, de transpor essa dimensão outra em que o texto se revela, é possível aceder ao que de mais íntimo nele corre, vencendo a resistência, limando arestas, burilando conceitos, depurando, partindo pedra, escavando, mergulhando no magma orgânico e, qual geólogo, proceder ao exame desses níveis, subníveis, estratos, subestratos ocultos e, ao mesmo tempo, interpretar esses marcos de sinalização dispostos ao longo do percurso, classificando, rotulando, analisando, desvelando sentidos, formas e conteúdos, detectando, lendo e medindo intensidades e interpretando os abalos sísmicos. Descodificando e aferindo os graus de tensão e distensão, o impacto da deformação do texto, a sua expansão ou contracção, dilatação ou redução, as suas rachas, os seus ecos, reverberações e sombras, como se de um sismólogo se tratasse, nessa busca incessante de uma transcendência imanente.
Por isso, também o acto de traduzir pode ser encarado como um abalo telúrico que produz inevitavelmente uma multiplicidade de fendas e fissuras na camada do texto e que, tal como num jogo de intensidades, divisões, tensões, avanços e recuos, cada elemento, micro ou macro textual luta por alcançar um ascendente ou protagonismo sobre os restantes, reflectindo-se nas inevitáveis e permanentes mudanças na tectónica do texto, afinal as diferentes manifestações da tradução inscritas no mapa do texto (...)

Wednesday, December 19, 2007

Obrigado, João!

Se a moda pega...




Em terras de Sua Majestade, o governo lembrou-se de "apertar o cinto" e vai daí corta nas traduções. Ao que parece, o dinheiro gasto em traduções é mal empregue e completamente desnecessário, porque ninguém lê o que se traduz, ou seja, ninguém consome este produto.
E em tempos de "lean production", vacas magras e quejandos, aperta-se o cinto e sacrifica-se o elo mais fraco.

Notícias disponíveis em

Monday, December 17, 2007

A Língua Enxertada




A Grafted Tongue (John Montague)

(Dumb,
Bloodied, the severed
head now chokes to
speak another tongue:--

As in
a long suppressed dream,
some stuttering, garb—
led ordeal of my own)

An Irish
child weeps at school
repeating its English.
After each mistake

The master
gouges another mark
on the tally stick
hung about its neck

Like a bell on a cow, a hobble
on a straying goat.
To slur and stumble

In shame
the altered syllables
of your own name;
to stray sadly home

And find
the turf cured width
of your parent’s hearth
growing slowly alien:

In cabin
and field, they still
speak the old tongue.
You may greet no one.

To grow
a second tongue, as
harsh a humiliation
as twice to be born.

Decades later,
that child’s grandchild’s
speech stumbles over lost
syllables of an old order.

Enxertias




E, no entanto, a tradução torna-se um texto‑enxerto que ‘pega’, isto é, que se enraiza no seu novo meio e nele tece laços orgânicos. Por isso, a tradução apresenta-se também como metáfora do enraizamento e da forma como esse texto enxertado é transplantado e aprende a germinar, ou seja, sobreviver, num ambiente linguístico e cultural estranho diferente do seu ecossistema dinâmico de origem, composto por um conjunto de “corpos estranhos provenientes dum espaço textual diferente” que foram transplantados para um novo ecossistema, fragmentos de um texto mais vasto de onde foram arrancados, como blocos erráticos circulando sem origem nem fim.
Tal como o tradutor, o texto e a palavra mostram-se, por conseguinte, entidades desenraizadas num contexto de errância pautado pela ausência de fixação e de barreiras. Perante os sentidos de desenraizamento na escrita, os textos‑outros encontrados na tradução funcionam como elementos potenciadores da “re‑locação” do sujeito e dotadores de uma maior confiança identitária. De facto, ao considerarmos esses “textos‑outros” como fragmentos dotados de mobilidade ou, mais concretamente, enxertos, obteremos a condição essencial para que os mesmos possam, simultaneamente, exercer uma função contaminadora e disseminadora da palavra num outro solo. De facto, a partir do momento em que o texto se estilhaça, o fragmento passa a ser agente contaminador, encarado não como uma entidade fechada, mas sim como um corpo autónomo e estruturante benjaminiano.

Wednesday, December 12, 2007

TAC - A Tradução Assistida por Computador




Nas minhas deambulações pela net, encontrei este interessante estudo sobre Machine Translation, e quejandos, intitulado How Good Is Machine Translation? A Modest Test, da autoria de Don dePalma.
Disponível em http://globalwatchtower.com/2007/10/30/mt-shootout/

Sunday, December 02, 2007

Mais um sítio para aliviar o stress

O dia em que o São Zizou enfrentou a sua besta negra

http://img122.imageshack.us/my.php?image=zidane18ub.swf

Advirtam-se (como dizia o outro)

Site anti-stress para basquetebolistas amadores e afins.

http://hax.at/files/boredmeeting.swf

Advirtam-se (como dizia o outro)

Site anti-stress para basquetebolistas amadores e afins.