Monday, October 11, 2004

Um prenúncio de morte

"Há um prenúncio de morte", reza a canção. Reininho sempre à espreita, mordaz, irónico, mas tão preciso e actual. Curioso como associo sempre a tradução a um estado próximo da morte. Uma fase terminal, estado próximo do coma, espaço limite, limítrofe, algures na fronteira entre a vida e a morte. Transpomos limiares, desafiamos barreiras e lutamos contra a perenidade. Ingénuo desígnio de conquista da imortalidade. Fugaz e fluído.
Encaro a tradução como uma imolação e sacrífico. De mim e do(s) outro(s). Visceral na sua essência.
Segue-se a autópsia, processo forense. E com ela a análise clínica, cirúrgica, espécie de medicina legal.
Espaço de composição e decomposição do texto, fragmentação e pulverização, estilhaçamento perpétuo, cíclico. Fragmentos à deriva, "boiando vazios" aguardando um sentido...
"I Gather the Limbs of Osiris" dizia o poeta acerca do processo criativo lírico.
"Breathing life into a dead ghost" (corpse, whatever...), retomava.
O tema é recorrente. Transmutação e migração, pausa e continuidade, metamorfose e transfusão, morte na vida, vida na morte.
E é em busca desse "afterlife" que todos nós, tradutores, iniciamos uma longa viagem rumo às nossas origens, génese do ser e espaço privilegiado de encontro com o outro.
Apaziguamento e dilaceração. Às vezes é tão ténue essa linha que nos liga à vida. Por vezes é tão ténue o contacto com a estranha alteridade. Cumplicidades, portanto. Sobra o texto e a mão que, corajosa, nos guia no escuro.

2 comments:

João Paulo Sousa said...

A aproximação da tradução à morte coloca a questão de definir o que é um cada um dos textos (de partida e de chegada) nessa situação. E o que é que realmente morre? O sentido não será, decerto, porque transmigra para outra língua. Queres desenvolver essa ideia, que me parece interessante?

Sérgio said...

João, o sentido não morre mas fica transfigurado/desfigurado/amputado.
Logo, o novo não é o mesmo.
O que o autor disse, disse-o na sua língua, no texto que o próprio escreveu.
"Os limites da minha linguagem significam os limites do meu mundo".
Não será a tradução um novo texto?