Porque nos toca a todos, aqui fica um artigo da autoria da colega Maria Luísa Malato Borralho, docente na FLUP, e publicado no "Público"
A TORRE DE BABEL:
O ESTATUTO DE LEITOR NA UNIVERSIDADE PORTUGUESA
O Leitor é, para quem o desconheça, o professor que, nas Universidades portuguesas, ensina línguas vivas. Por muito estranho que pareça, o professor de línguas vivas não é um professor universitário como os outros. Ao contrário do que legitimamente sucede com quem ensina grego ou latim clássicos, o docente que ensina alemão, espanhol, francês ou inglês não tem enquadramento senão como “pessoal especialmente contratado”. Tal categoria abrange somente casos excepcionais a que se acede por convite. Assim, na prática, o actual Estatuto da Carreira Docente Universitária teve para os Leitores alguns “efeitos colaterais”:
a) associou e associa a categoria de Leitor ao ensino das línguas vivas;
b) vedou e veda aos Leitores estrangeiros (inclusive aos cidadãos da UE) qualquer progressão na carreira académica – tal disposição viola claramente o número 2 do artigo 39.º. do Tratado de Roma, relativo à liberdade de circulação de trabalhadores;
c) obrigou e obriga os docentes de línguas vivas a assinar regularmente um contrato inicial por um ano, renovável sempre por três, sem que algum dia tenham possibilidade de conseguir um melhor contrato ou qualquer outra forma de vínculo contratual por parte da entidade empregadora;
d) incentivou e incentiva as provas académicas de todos os outros membros (inclusive de Assistentes convidados e Monitores), mas desmotivou das mesmas o Leitor (quase sempre trabalhador estrangeiro), que continuaria sempre Leitor, tornando-o o elo mais frágil de toda a função docente nas Universidades. Em consequência, o Leitor é hoje despedido, independentemente da qualidade dos serviços prestados à Universidade Portuguesa, unicamente porque pode ser despedido.
Este sistema pressupunha uma sociedade em que os empregos eram estáveis, os regimes gerais de trabalho em dedicação exclusiva, ou em tempo integral, e uma legislação que protegia o trabalhador nacional em detrimento do estrangeiro. Também a fragilidade contratual do Leitor não sobressaía da dos restantes colegas. A carreira universitária é quase a única (quer no direito da função pública quer no direito do trabalho) em que a progressão se faz exclusivamente por provas e concursos públicos e nela só se pode ter o vínculo da nomeação definitiva, depois de passados 2 anos na categoria final da carreira (como professor catedrático) ou 5 anos na categoria anterior (a de professor associado).
Ainda há muito pouco tempo, 75% dos professores universitários não tinham nomeação definitiva. Ora muita coisa mudou entretanto neste contexto frágil e tranquilo. Tornou-se frágil e sobressaltado. Os 75% referidos serão hoje menos, porque muitos foram sendo despedidos e outros terminaram as provas académicas. Assiste-se hoje a uma revolução calada nas universidades e todas as revoluções (sobretudo as caladas) são darwinianas, cruéis para os seus membros mais fracos, aqui, os leitores, impondo-se a fraqueza contratual à importância dos leitores no equilíbrio do ecossistema universitário. Hoje, o Leitor, nas universidades portuguesas, não conhece limites para o trabalho que tem de aceitar. Os seus contratos passaram a ser renováveis anualmente, apesar de estarem há décadas a ensinar na instituição. O Leitor pode ser despedido porque não tem doutoramento, como pode ser despedido apesar de ter doutoramento. Dá aulas na licenciatura, mas (até porque as licenciaturas em línguas se reduziram invariavelmente a três anos) também agora de mestrado, quando não seminários de doutoramento, mas sem as garantias ou direitos que ainda assim possuem os restantes colegas. Mais exemplos haveria, até porque o Leitor serve para tudo e a quase nada vai tendo direito. Porque ensina línguas vivas. Porque é Leitor. Porque daí não pode sair, como sucede a algumas castas.
Num quadro em que os alunos chegam à Universidade com tantas deficiências na aprendizagem de línguas estrangeiras e simultaneamente se pede a estas instituições que preparem professores, tradutores ou intérpretes em apenas 3 anos, os leitores são insubstituíveis. A questão dos Leitores é pois científica, jurídica e económica. Que professores e que profissionais se poderão formar com qualidade, capazes de competir, no mínimo, num contexto europeu? Talvez o estatuto de Leitor possa vir a ser substituído com vantagem pelo recrutamento de Santos, de preferência Milagreiros, que ficam ainda mais económicos. Talvez se pense que é até vantajoso transformar todos os docentes em Leitores. A avaliar pelo que tem sucedido aos Leitores que deixaram a Universidade, não.
A educação é, além do mais, do ponto de vista económico, um negócio estranho. Como todo o pai sabe, o negócio demora dez, vinte anos a dar frutos que se vejam. Depois, investe-se o dinheiro numas coisas e os lucros surgem de outras. E quem investe não é nunca quem recebe.
O mundo é uma Torre de Babel. A Universidade é uma das poucas instituições que tem como propósito maior garantir a compreensão entre os indivíduos. E os Leitores uma das suas maiores armas.
Maria Luísa Malato Borralho
Professora associada com agregação
(Faculdade de Letras da Universidade do Porto)
Monday, March 16, 2009
Tradução simultânea: Precisa-se (urgente)
Há pessoas que nascem com um dom especial para as línguas.
Este homem, quando fala, é um verdadeiro "sinhor".
Tenho a impressão de que o discurso era o mesmo, fosse na Polónia, Eslovénia, Alemanha, Marte ou Miranda do Douro.
Talvez a entoação e o sotaque mudassem um pouquinho...
Este homem, quando fala, é um verdadeiro "sinhor".
Tenho a impressão de que o discurso era o mesmo, fosse na Polónia, Eslovénia, Alemanha, Marte ou Miranda do Douro.
Talvez a entoação e o sotaque mudassem um pouquinho...
Saturday, March 14, 2009
Traduza você mesmo
Um pequeno e enfadonho exercício conceptual na arte da tradução do palavrão
From "The Sopranos" with love
the sopranos, uncensored. from victor solomon on Vimeo.
From "The Sopranos" with love
the sopranos, uncensored. from victor solomon on Vimeo.
Assunto encerrado (ou talvez adiado até à próxima asneira)
O que significa que isto é mesmo uma causa (coisa) séria para nós, "happy few", que se preocupam com o estado das coisas (causas), enquanto outros assobiam para o ar, como se nada se passasse.
A BabeldoJorge coloca, e bem, o dedo na ferida.
A BabeldoJorge coloca, e bem, o dedo na ferida.
Thursday, March 12, 2009
O Bom, O Mau e o Vilão: Ainda a propósito do Magalhães

'"Dirije o guindaste e copía o modelo" ou “Puxa e Larga uma peça por vês” são algumas frases com erros de português que podem ser lidas nos jogos didácticos e que são facilmente detectadas por crianças.
O problema terá ocorrido na tradução, que segundo o Expresso foi feita por um emigrante português, que vive desde os 10 anos em França e que só tem a 4ª classe.'
in Sic Online, disponível em
http://sic.aeiou.pt/online/noticias/pais/Erros+de+portugues+em+jogos+do+Magalhaes.htm
Ou ainda
1 - O Tux escondeu algumas coisas. Encontra-las na boa ordem.
2 - Dirije o guindaste e copía o modelo.
3 - Pega as imagens na esquerda e mete-las nos pontos vermelhos.
4 - Primeiro, organiza bem os elementos para poder contar-los.
5 - Quando acabas-te, carrega no botão OK.
6 - Abaixo da grua, vai achar quatro setas que te permitem de mexer os elementos.
7 - Com o teclado, escreve o número de pontos que vês nos dados que caêm.
8 - Tens a certeza que queres saír?
9 - Aprende a escrever texto num processador. Este processador é especial em que obriga o uso de estilos.
10 - Quando o tangram for dito frequentemente ser antigo, sua existência foi somente verificada em 1800.
[Fonte: Expresso]
in A Terceira Noite, disponível em http://aterceiranoite.wordpress.com/2009/03/10/magalhanes-em-10-licoes/
Lamento voltar ao assunto, mas há ainda umas coisinhas que precisava de esclarecer sobre isto.
Sei que corro o risco de tornar o assunto uma questão pessoal, estilo cruzada, mas há algumas verdades e constatações que podemos tirar de toda esta novela. Vejamos, portanto:
1. Afinal havia outro... como diz a canção.
2. Afinal a tradução já não terá sido apenas feita por um programa de tradução automática, mas sim por um humano. Óptimo, a continuidade da espécie humana está aqui assegurada.
3. É óbvio que havia necessidade de se encontrar um bode expiatório humano...
4. É óbvio também, e por muito que se diabolize a tradução automática, que aqueles erros jamais terão sido todos feitos por uma máquina ou programa informático.
5. A tradução automática é péssima, é claro, mas os erros que, normalmente, encontramos são de natureza semântica e sintáctica, e não tanto do foro morfológico, morfo-sintáctico, gramatical, whatever lhes queiramos chamar.
6. Daí, o elemento humano, homem/mulher... agente introdutor e validador do erro ou da asneira...
O problema terá ocorrido na tradução, que segundo o Expresso foi feita por um emigrante português, que vive desde os 10 anos em França e que só tem a 4ª classe.'
in Sic Online, disponível em
http://sic.aeiou.pt/online/noticias/pais/Erros+de+portugues+em+jogos+do+Magalhaes.htm
Ou ainda
1 - O Tux escondeu algumas coisas. Encontra-las na boa ordem.
2 - Dirije o guindaste e copía o modelo.
3 - Pega as imagens na esquerda e mete-las nos pontos vermelhos.
4 - Primeiro, organiza bem os elementos para poder contar-los.
5 - Quando acabas-te, carrega no botão OK.
6 - Abaixo da grua, vai achar quatro setas que te permitem de mexer os elementos.
7 - Com o teclado, escreve o número de pontos que vês nos dados que caêm.
8 - Tens a certeza que queres saír?
9 - Aprende a escrever texto num processador. Este processador é especial em que obriga o uso de estilos.
10 - Quando o tangram for dito frequentemente ser antigo, sua existência foi somente verificada em 1800.
[Fonte: Expresso]
in A Terceira Noite, disponível em http://aterceiranoite.wordpress.com/2009/03/10/magalhanes-em-10-licoes/
Lamento voltar ao assunto, mas há ainda umas coisinhas que precisava de esclarecer sobre isto.
Sei que corro o risco de tornar o assunto uma questão pessoal, estilo cruzada, mas há algumas verdades e constatações que podemos tirar de toda esta novela. Vejamos, portanto:
1. Afinal havia outro... como diz a canção.
2. Afinal a tradução já não terá sido apenas feita por um programa de tradução automática, mas sim por um humano. Óptimo, a continuidade da espécie humana está aqui assegurada.
3. É óbvio que havia necessidade de se encontrar um bode expiatório humano...
4. É óbvio também, e por muito que se diabolize a tradução automática, que aqueles erros jamais terão sido todos feitos por uma máquina ou programa informático.
5. A tradução automática é péssima, é claro, mas os erros que, normalmente, encontramos são de natureza semântica e sintáctica, e não tanto do foro morfológico, morfo-sintáctico, gramatical, whatever lhes queiramos chamar.
6. Daí, o elemento humano, homem/mulher... agente introdutor e validador do erro ou da asneira...
7. E, neste filme, o humano teve o azar de ser português, emigrante e a 4ª classe.
8. Sinceramente, tenho pena que este homem seja o elo mais fraco, como disse antes, desta perversa cadeia de transmissão do conhecimento associado a um bem de consumo.
9. E tenho pena que o humano seja, neste caso, crucificado ou, melhor ainda, exposto e sacrificado na praça pública, anónimo e "visivelmente invisível", personificando/encarnando na perfeição tudo o que de mau está associado à tradução.
10. Uma verdadeira homenagem ao "incompetente desconhecido". Perdoai-lhe, pois, já que a culpa não é sua. Uma coisa é ignorância; outra coisa, é incompetência.
11. E, no entanto, literalmente achincalhado, pejorativamente classificado como "emigrante" e "apenas com a 4ª classe", epítetos que toda essa gentinha "cobardemente correcta" usa e abusa para mostrar a sua alegada superioridade intelectual, moral, económica, social... "sacudindo, assim, a água do capote"...
12. Ser emigrante ou imigrante não é sinónimo de incompetência e falta de qualidade. Nem sequer um factor necessário para a análise qualitativa da tradução. Os tradutores são bons ou maus, não são emigrantes, nem cidadãos de primeira ou de segunda.
13. Ter a 4ª classe não é necessariamente sinónimo de tontice e boçalidade. Conheço muito boa gente com a 4ª classe que tem um discurso, inteligência e sensibilidade muito superiores aos senhores do Ministério da Educação e aos CEOs desse tão fantástico gigante do sucesso, a JP Sá Couto, verdadeiros responsáveis por este verdadeiro auto-de-fé em praça pública. De novo, uma coisa é ignorância; outra coisa é incompetência. E, neste caso concreto, graças a estes senhores, estamos perante um caso de lesa ______ (preencha o leitor o espaço em branco, por favor)
14. Porque o que está aqui verdadeiramente em causa é a tradicionalmente desastrosa política do "chico-esperto", cultora da incompetência, ganância e total falta de escrúpulos. Incompetência pura...
15. É claro ainda que, em última instância, todo este enredo revela a trágica situação de uma actividade nobre e honesta, a que muitos chamam (ou chamaram) "tradução", "mediação", "intermediação", "interpretação", seja lá o que for. E que agora chamam "localização", "engenharia de línguas", "indústria das línguas", "prestação de serviços de tradução"...
16. Ofício nobre e honesto, porque nele convergem valores e saberes que acompanharam e acompanham o Homem desde o início dos tempos. Valores de respeito, tolerância, ética, abertura ao "outro", diálogo, ligação, convergência, construção de pontes... era capaz de estar aqui a noite inteira a enumerar uma lista de conceitos que associo (ou associamos) ao labor/ofício/actividade/negócio da tradução.
17. A tradução não tem de ser necessariamente uma coisa negativa, associada a valores negativos e menores.
18. E, sinceramente, fico irritado com a forma como, desde sempre, quando se fala de tradução, há sempre esta construção, ficação, este discurso negativo, crítico e depreciativo que impera.
19. Não tenho procuração para defender os tradutores, meus pares. Sou apenas um profissional que está habituado a reconstruir com o discurso, aquilo que outros destroem com as suas palavras, actos, gestos... Sou, além disso, um formador que gosta de partilhar conhecimentos, competências e saberes com os seus alunos, dentro de uma perspectiva profissional e qualitativamente sustentada, baseada numa experiência de vida orientada para a prestação de um serviço que considero crucial, rigoroso e apaixonante.
20. Mas fico possesso quando nos envolvem nesta cadeia perversa, como se fôssemos os pobrezinhos, os parentes pobres, os néscios ou os coitadinhos que aspiram por um lugar ao sol, junto dos privilegiados e iluminados.
21. E fico furibundo quando nos afastam, ou somos afastados, dos processos de decisão e justificação, no fundo, quando nos cortam a palavra.
22. Este é, de facto, o espelho da realidade socioprofissional de uma actividade a que muitos chamam "tradução".
23. Há bons e maus tradutores, como há bons e maus médicos, ministros, professores, treinadores.
24. É lógico que há péssimos tradutores que se intitulam profissionais e que, com os seus actos, acabam por fazer tanto pela reputação da "classe" como o desgraçado e infeliz emigrante que teve o azar de estar no sítio errado, no momento errado.
25. Mas há excelentes tradutores que batalham todos os dias contra esse gente esclarecida que constrói Magalhães, elabora relatórios e contas, redige sentenças ou cartas rogatórias, fabrica prédios e centros comerciais ou legisla nos gabinetes.
26. Reparem que não falo só dos tradutores literários. Não me interessa aqui valorizar ou desvalorizar áreas e domínios de actividade. Falo sobretudo dessa multidão anónima que vive, tantas vezes, abaixo do nível das águas, no subsolo e no esquecimento, em total precariedade e ansiedade, que luta diariamente contra o anátema do desprestígio, desvalorização, subalternidade, inferioridade, palavras que são frequentemente lançadas, pela sociedade ou pelos clientes, para as costas do tradutor.
27. "Não gostei nada daquela tradução", "Era capaz de fazer melhor", "O tradutor não percebeu nada", "Não é assim que se diz", "Tive que mandar fazer tudo de novo", "É tão caro. O meu cão, que é bilíngue, fazia isso com uma perna às costas", "Tenho uma prima, que dá explicações e tem um curso de línguas, que me escreve os emails para os clientes de graça," etc, etc, são comentários que todos nos habituámos a ouvir.
28. O Magalhães é, portanto, e apenas, a metáfora da nossa existência.
Algures entre Sísifo e Tântalo, numa tensão constante entre o visível e invisível, somos, e sabemos ser, absolutamente indispensáveis, verdadeiro dínamo, roda motriz e elemento catalisador da sociedade e, no entanto, tristemente condenados a errar sem destino e sem lar, desenraizados e ostracizados por aqueles que nos acolhem e, ao mesmo tempo, nos apagam, muito convenientemente, através de uma simples tecla "Delete" (Apagar).
8. Sinceramente, tenho pena que este homem seja o elo mais fraco, como disse antes, desta perversa cadeia de transmissão do conhecimento associado a um bem de consumo.
9. E tenho pena que o humano seja, neste caso, crucificado ou, melhor ainda, exposto e sacrificado na praça pública, anónimo e "visivelmente invisível", personificando/encarnando na perfeição tudo o que de mau está associado à tradução.
10. Uma verdadeira homenagem ao "incompetente desconhecido". Perdoai-lhe, pois, já que a culpa não é sua. Uma coisa é ignorância; outra coisa, é incompetência.
11. E, no entanto, literalmente achincalhado, pejorativamente classificado como "emigrante" e "apenas com a 4ª classe", epítetos que toda essa gentinha "cobardemente correcta" usa e abusa para mostrar a sua alegada superioridade intelectual, moral, económica, social... "sacudindo, assim, a água do capote"...
12. Ser emigrante ou imigrante não é sinónimo de incompetência e falta de qualidade. Nem sequer um factor necessário para a análise qualitativa da tradução. Os tradutores são bons ou maus, não são emigrantes, nem cidadãos de primeira ou de segunda.
13. Ter a 4ª classe não é necessariamente sinónimo de tontice e boçalidade. Conheço muito boa gente com a 4ª classe que tem um discurso, inteligência e sensibilidade muito superiores aos senhores do Ministério da Educação e aos CEOs desse tão fantástico gigante do sucesso, a JP Sá Couto, verdadeiros responsáveis por este verdadeiro auto-de-fé em praça pública. De novo, uma coisa é ignorância; outra coisa é incompetência. E, neste caso concreto, graças a estes senhores, estamos perante um caso de lesa ______ (preencha o leitor o espaço em branco, por favor)
14. Porque o que está aqui verdadeiramente em causa é a tradicionalmente desastrosa política do "chico-esperto", cultora da incompetência, ganância e total falta de escrúpulos. Incompetência pura...
15. É claro ainda que, em última instância, todo este enredo revela a trágica situação de uma actividade nobre e honesta, a que muitos chamam (ou chamaram) "tradução", "mediação", "intermediação", "interpretação", seja lá o que for. E que agora chamam "localização", "engenharia de línguas", "indústria das línguas", "prestação de serviços de tradução"...
16. Ofício nobre e honesto, porque nele convergem valores e saberes que acompanharam e acompanham o Homem desde o início dos tempos. Valores de respeito, tolerância, ética, abertura ao "outro", diálogo, ligação, convergência, construção de pontes... era capaz de estar aqui a noite inteira a enumerar uma lista de conceitos que associo (ou associamos) ao labor/ofício/actividade/negócio da tradução.
17. A tradução não tem de ser necessariamente uma coisa negativa, associada a valores negativos e menores.
18. E, sinceramente, fico irritado com a forma como, desde sempre, quando se fala de tradução, há sempre esta construção, ficação, este discurso negativo, crítico e depreciativo que impera.
19. Não tenho procuração para defender os tradutores, meus pares. Sou apenas um profissional que está habituado a reconstruir com o discurso, aquilo que outros destroem com as suas palavras, actos, gestos... Sou, além disso, um formador que gosta de partilhar conhecimentos, competências e saberes com os seus alunos, dentro de uma perspectiva profissional e qualitativamente sustentada, baseada numa experiência de vida orientada para a prestação de um serviço que considero crucial, rigoroso e apaixonante.
20. Mas fico possesso quando nos envolvem nesta cadeia perversa, como se fôssemos os pobrezinhos, os parentes pobres, os néscios ou os coitadinhos que aspiram por um lugar ao sol, junto dos privilegiados e iluminados.
21. E fico furibundo quando nos afastam, ou somos afastados, dos processos de decisão e justificação, no fundo, quando nos cortam a palavra.
22. Este é, de facto, o espelho da realidade socioprofissional de uma actividade a que muitos chamam "tradução".
23. Há bons e maus tradutores, como há bons e maus médicos, ministros, professores, treinadores.
24. É lógico que há péssimos tradutores que se intitulam profissionais e que, com os seus actos, acabam por fazer tanto pela reputação da "classe" como o desgraçado e infeliz emigrante que teve o azar de estar no sítio errado, no momento errado.
25. Mas há excelentes tradutores que batalham todos os dias contra esse gente esclarecida que constrói Magalhães, elabora relatórios e contas, redige sentenças ou cartas rogatórias, fabrica prédios e centros comerciais ou legisla nos gabinetes.
26. Reparem que não falo só dos tradutores literários. Não me interessa aqui valorizar ou desvalorizar áreas e domínios de actividade. Falo sobretudo dessa multidão anónima que vive, tantas vezes, abaixo do nível das águas, no subsolo e no esquecimento, em total precariedade e ansiedade, que luta diariamente contra o anátema do desprestígio, desvalorização, subalternidade, inferioridade, palavras que são frequentemente lançadas, pela sociedade ou pelos clientes, para as costas do tradutor.
27. "Não gostei nada daquela tradução", "Era capaz de fazer melhor", "O tradutor não percebeu nada", "Não é assim que se diz", "Tive que mandar fazer tudo de novo", "É tão caro. O meu cão, que é bilíngue, fazia isso com uma perna às costas", "Tenho uma prima, que dá explicações e tem um curso de línguas, que me escreve os emails para os clientes de graça," etc, etc, são comentários que todos nos habituámos a ouvir.
28. O Magalhães é, portanto, e apenas, a metáfora da nossa existência.
Algures entre Sísifo e Tântalo, numa tensão constante entre o visível e invisível, somos, e sabemos ser, absolutamente indispensáveis, verdadeiro dínamo, roda motriz e elemento catalisador da sociedade e, no entanto, tristemente condenados a errar sem destino e sem lar, desenraizados e ostracizados por aqueles que nos acolhem e, ao mesmo tempo, nos apagam, muito convenientemente, através de uma simples tecla "Delete" (Apagar).
Tuesday, March 10, 2009
Sobre tradução de poesia (poema mudado para português por Herberto Helder)
Sobre tradução de poesia
(Zbigniew Herbert)
Zumbindo um besouro pousa
numa flor e encurva
o caule delgado
e anda por entre filas de pétalas folhas
de dicionários
e vai direito ao centro
do aroma e da doçura
e embora transtornado perca
o sentido do gosto
continua
até bater com a cabeça
no pistilo amarelo
e agora o difícil o mais extremo
penetrar floramente através
dos cálices até
à raiz e depois bêbado e glorioso
zumbir forte:
penetrei dentro dentro dentro
e mostrar aos cépticos a cabeça
coberta de ouro
de polén
Herberto Helder, in Ouolof (poemas mudados para português)
(Zbigniew Herbert)
Zumbindo um besouro pousa
numa flor e encurva
o caule delgado
e anda por entre filas de pétalas folhas
de dicionários
e vai direito ao centro
do aroma e da doçura
e embora transtornado perca
o sentido do gosto
continua
até bater com a cabeça
no pistilo amarelo
e agora o difícil o mais extremo
penetrar floramente através
dos cálices até
à raiz e depois bêbado e glorioso
zumbir forte:
penetrei dentro dentro dentro
e mostrar aos cépticos a cabeça
coberta de ouro
de polén
Herberto Helder, in Ouolof (poemas mudados para português)
Monday, March 09, 2009
Quando a cabeça (do cliente) não tem juízo, o tradutor é que paga...
Eu já sabia, tinha cá um pressentimento, de que, lá no fundo, no fundo, esta bronca do Magalhães ainda ia sobrar para nós... o elo mais fraco, a modos que bode expiatório, ou seja, o tradutorzeco, melhor ainda, a traduçãozeca, essa coisa sem importância e menor, que se faz, assim com uma máquina, tipo merceeiro, e que depois se corrige à mão e em cima do joelho, para dar o toque ou retoque (tipo bate-chapas) final...
Mas o cliente tem sempre razão, e a ganância e a ânsia do lucro fácil dos progenitores do Magalhães é, a todos os títulos, exemplar. Que se lixe o "sofeteuére", que se lixe o "ardeuére" e os manuais de instruções, "elpefailes" e "faques", que se lixe o joguinho e que se lixe se as criancinhas conseguem ou não perceber as suas regrinhas e jogar o dito joguinho, ou mesmo ler as suas instruções... lixo literário inferior, por certo, filho de um deus menor. Afinal de contas, é mesmo muito fácil traduzir... e então tratando-se de instruções, qualquer pessoa está habilitada a tal, desde o Tino de Rãs, até ao Papa Bento XVI, passando, é claro, por Manuel Alegre ou pelo próprio José Mourinho.
Ah, a célebre e tão elogiada "localização", que ninguém percebe o que é, que ninguém sabe o que é, mas que toda a gente pratica de forma "inconciente" e abre a boca até às goelas de tanto fascínio e sedução... (bocejo...)
Valha-nos São Jerónimo.
Mas o cliente tem sempre razão, e a ganância e a ânsia do lucro fácil dos progenitores do Magalhães é, a todos os títulos, exemplar. Que se lixe o "sofeteuére", que se lixe o "ardeuére" e os manuais de instruções, "elpefailes" e "faques", que se lixe o joguinho e que se lixe se as criancinhas conseguem ou não perceber as suas regrinhas e jogar o dito joguinho, ou mesmo ler as suas instruções... lixo literário inferior, por certo, filho de um deus menor. Afinal de contas, é mesmo muito fácil traduzir... e então tratando-se de instruções, qualquer pessoa está habilitada a tal, desde o Tino de Rãs, até ao Papa Bento XVI, passando, é claro, por Manuel Alegre ou pelo próprio José Mourinho.
Ah, a célebre e tão elogiada "localização", que ninguém percebe o que é, que ninguém sabe o que é, mas que toda a gente pratica de forma "inconciente" e abre a boca até às goelas de tanto fascínio e sedução... (bocejo...)
Valha-nos São Jerónimo.
Friday, February 20, 2009
Cuidado - Língua em Extinção
Atlas da Unesco das línguas ameaçadas ou em risco de extinção.
New edition of UNESCO’s Atlas of the World's Languages in Danger
New edition of UNESCO’s Atlas of the World's Languages in Danger
Wednesday, February 18, 2009
SURVEY: THE USE OF TERMINOLOGY MANAGEMENT SYSTEMS INTEGRATED TO TEnTS
A quem possa interessar
We are conducting a research project based at the University of Ottawa to learn more about how language professionals manage terminology within Translation Environment Tools. We would like to invite you to participate in this study.
If you are a language professional who works with Translation Environment Tools (e.g. Déjà Vu, SDL TRADOS, MultiTrans, WordFast, OmegaT), we need your help!
Q: Will it take long?
A: No – only about 15-20 minutes of your time.
Q: Do I have to give my name or contact details?
A: No – you can remain completely anonymous.
Q: What do I have to do?
A: Answer a short survey on how you manage terminology.
Q: What if my answers aren’t right?
A: There are no wrong answers! We want to know about YOUR practices. It doesn’t matter how anyone else responds. Just give us your honest opinion.
Q: What will the outcome of this project be?
A: We hope to achieve a better understanding of the terminology-related needs of language professionals, and to determine whether or how terminology management can be optimized when integrated within Translation Environment Tools.
Q: Where can I find out more?
A: Attached to this message you will find a Letter of Information. If you have any further questions, feel free to contact the researchers Professor Lynne Bowker (lbowker@uottawa.ca) or Ms. Marta Gómez Palou (mgome006@uottawa.ca).
Q: I’d like to participate – how do I start?
A: You’ll find everything you need on the Survey Monkey website
https://www.surveymonkey.com/s.aspx?sm=0hu46J4X9fWC3HgxY_2fkRMw_3d_3d
Just click the above link and follow the instructions on the screen.
Q: Where can I check the results?
A: When you finish the survey you will see a summary of the results at that moment. You can check the final results just by clicking on the following link
https://www.surveymonkey.com/sr.aspx?sm=k1tbSqksMQtnkwhhRROZFC2u_2fS_2f9KrBvinXbYxMrZbs_3d
after March 8, 2009.
Q: Do I have to fill out the survey right away?
A: That would be great! If you can't answer it now, the survey will be open until March 8, 2009. To complete it, you only need to click on the following link
https://www.surveymonkey.com/s.aspx?sm=0hu46J4X9fWC3HgxY_2fkRMw_3d_3d
Thank you for your time. YOU can make a difference in helping us to better understand and meet the terminology-management-related needs of language professionals.
We are conducting a research project based at the University of Ottawa to learn more about how language professionals manage terminology within Translation Environment Tools. We would like to invite you to participate in this study.
If you are a language professional who works with Translation Environment Tools (e.g. Déjà Vu, SDL TRADOS, MultiTrans, WordFast, OmegaT), we need your help!
Q: Will it take long?
A: No – only about 15-20 minutes of your time.
Q: Do I have to give my name or contact details?
A: No – you can remain completely anonymous.
Q: What do I have to do?
A: Answer a short survey on how you manage terminology.
Q: What if my answers aren’t right?
A: There are no wrong answers! We want to know about YOUR practices. It doesn’t matter how anyone else responds. Just give us your honest opinion.
Q: What will the outcome of this project be?
A: We hope to achieve a better understanding of the terminology-related needs of language professionals, and to determine whether or how terminology management can be optimized when integrated within Translation Environment Tools.
Q: Where can I find out more?
A: Attached to this message you will find a Letter of Information. If you have any further questions, feel free to contact the researchers Professor Lynne Bowker (lbowker@uottawa.ca) or Ms. Marta Gómez Palou (mgome006@uottawa.ca).
Q: I’d like to participate – how do I start?
A: You’ll find everything you need on the Survey Monkey website
https://www.surveymonkey.com/s.aspx?sm=0hu46J4X9fWC3HgxY_2fkRMw_3d_3d
Just click the above link and follow the instructions on the screen.
Q: Where can I check the results?
A: When you finish the survey you will see a summary of the results at that moment. You can check the final results just by clicking on the following link
https://www.surveymonkey.com/sr.aspx?sm=k1tbSqksMQtnkwhhRROZFC2u_2fS_2f9KrBvinXbYxMrZbs_3d
after March 8, 2009.
Q: Do I have to fill out the survey right away?
A: That would be great! If you can't answer it now, the survey will be open until March 8, 2009. To complete it, you only need to click on the following link
https://www.surveymonkey.com/s.aspx?sm=0hu46J4X9fWC3HgxY_2fkRMw_3d_3d
Thank you for your time. YOU can make a difference in helping us to better understand and meet the terminology-management-related needs of language professionals.
Tuesday, February 17, 2009
3º HOT - Tradução Jurídica
3º SEMINÁRIO HOT – Hands-on Translation (Tradução Jurídica)
Numa iniciativa conjunta dos seus departamentos de Estudos Ingleses e Norte-Americanos (DEINA) e de Estudos Franceses (DEF), o Instituto de Letras e Ciências Humanas (ILCH) da Universidade do Minho apresenta, nos próximos dias 27 e 28 de Fevereiro de 2009, o seu 3º Seminário HOT na área da Tradução, subordinado ao tema: Tradução Jurídica / Documentos de Especialidade no Domínio da Tradução Jurídica.
Para mais informações, consultar o sítio oficial do evento em
http://ceh.ilch.uminho.pt/hot/
Numa iniciativa conjunta dos seus departamentos de Estudos Ingleses e Norte-Americanos (DEINA) e de Estudos Franceses (DEF), o Instituto de Letras e Ciências Humanas (ILCH) da Universidade do Minho apresenta, nos próximos dias 27 e 28 de Fevereiro de 2009, o seu 3º Seminário HOT na área da Tradução, subordinado ao tema: Tradução Jurídica / Documentos de Especialidade no Domínio da Tradução Jurídica.
Para mais informações, consultar o sítio oficial do evento em
http://ceh.ilch.uminho.pt/hot/
Sunday, February 15, 2009
Tuesday, February 10, 2009
Mind your English
Saturday, February 07, 2009
Você disse "precariedade"?
Afinal, este não é um só problema nosso...
BRUSSELS, 12 December 2008
Press release
PRECARIOUS WORKING CONDITIONS JEOPARDISE QUALITY OF TRANSLATED LITERATURE
The European Council of Literary Translators’ Associations (CEATL) announces the publication of its comparative study of European literary translators’ social and economic conditions, carried out in 2007–2008, the first survey of its kind. The main conclusion: nowhere in Europe can literary translators make a living under the conditions imposed on them by “the market”; in many countries (including some of the wealthiest), their situation can only be described as catastrophic. This is a serious social problem on a continent that prides itself in being developed, multicultural and multilingual, but it is also, and above all, a major artistic and cultural problem. What are the implications for the quality of literary exchanges between our societies if literary translators have to dash off their work in haste in order to keep body and soul together?
To download the study, go to:
www.ceatl.eu/docs/surveyuk.pdf (English)
or
www.ceatl.eu/docs/surveyfr.pdf (French).
The publication of this study coincides with the launch of CEATL’s revamped website, which is now at www.ceatl.eu.
BRUSSELS, 12 December 2008
Press release
PRECARIOUS WORKING CONDITIONS JEOPARDISE QUALITY OF TRANSLATED LITERATURE
The European Council of Literary Translators’ Associations (CEATL) announces the publication of its comparative study of European literary translators’ social and economic conditions, carried out in 2007–2008, the first survey of its kind. The main conclusion: nowhere in Europe can literary translators make a living under the conditions imposed on them by “the market”; in many countries (including some of the wealthiest), their situation can only be described as catastrophic. This is a serious social problem on a continent that prides itself in being developed, multicultural and multilingual, but it is also, and above all, a major artistic and cultural problem. What are the implications for the quality of literary exchanges between our societies if literary translators have to dash off their work in haste in order to keep body and soul together?
To download the study, go to:
www.ceatl.eu/docs/surveyuk.pdf (English)
or
www.ceatl.eu/docs/surveyfr.pdf (French).
The publication of this study coincides with the launch of CEATL’s revamped website, which is now at www.ceatl.eu.
Friday, February 06, 2009
Conferência de Sue Ellen Wright
Conferência de Sue Ellen Wright, sobre Tradução Técnica, Científica e de Medicina (15 de Janeiro de 2009)
Disponível aqui: http://www.accordent.umontreal.ca/20090115-114727-1/
Ou aqui:
http://www.ling.umontreal.ca/conference-midi/index.html
Disponível aqui: http://www.accordent.umontreal.ca/20090115-114727-1/
Ou aqui:
http://www.ling.umontreal.ca/conference-midi/index.html
Thursday, February 05, 2009
Serviço público
Compendium of Translation Software - directory of commercial machine translation systems and computer-aided translation support tools, compiled by John Hutchins on behalf of the European Association forMachine Translation and the International Association for MachineTranslation
URL: http://www.hutchinsweb.me.uk/Compendium.htm
Sobre a edição mais recente (No. 15):
"This directory is intended to provide the most comprehensive and detailed listing of all known systems of machine translation andcomputer-based translation support tools that are currently available for purchase from stores, by mail or via the Internet. It should be noted that it does not include any systems still under development (or reported to be close to market), nor does it include any systems or translation tools of limited availability, such as systems developed for particular clients by software or other companies."
URL: http://www.hutchinsweb.me.uk/Compendium.htm
Sobre a edição mais recente (No. 15):
"This directory is intended to provide the most comprehensive and detailed listing of all known systems of machine translation andcomputer-based translation support tools that are currently available for purchase from stores, by mail or via the Internet. It should be noted that it does not include any systems still under development (or reported to be close to market), nor does it include any systems or translation tools of limited availability, such as systems developed for particular clients by software or other companies."
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